quarta-feira, 30 de julho de 2008

Entre os Suspiros e o Seguir em Frente...


Já faz alguns anos que escutamos suspiros apreensivos, angustiados e desolados de militantes e dirigentes que marcaram a história do Partido dos Trabalhadores.

Sinto que o que está por trás desses suspiros é a procura de respostas para perguntas que se tornaram constantes e, ao mesmo tempo, tão necessárias: Estamos no caminho certo? Aonde essa caminhada vai nos levar?

Tais militantes carregam, individualmente, em suas memórias, uma história de vida, uma moral coletiva, um partido extraordinário, um partido de esperanças e superações, que tanto lhes trouxe momentos de felicidade e orgulho.

Talvez pelo fato de a maioria de nós vivermos numa luta diária pela sobrevivência, nem todos topam o desafio de estar à frente de uma organização que preza pelo interesse público. Por isso nós, filiados e militantes, que temos algo em comum, podemos dizer que somos, em certa maneira, diferentes. Os caminhos em que seguimos, na maior parte das vezes, não são os mais fáceis.

Deixar de representar apenas a si, levar consigo discursos de defesa e ataque a favor de um projeto horizontal de sociedade, indignar-se no cotidiano pelas injustiças cometidas contra as pessoas em qualquer esfera, TER POSIÇÃO, às vezes, não é tarefa fácil.

Com isso, todos os filiados do Partido dos Trabalhadores que, nos momentos bons e ruins, empunharam e empunham nossa bandeira, mostram-se diferentes.

O que nos move o que nos faz seguir em frente? Sei que para essa pergunta é importante distinguirmos a concepção de nosso partido e sua tarefa de quebrar paradigmas – principalmente, aqueles paradigmas que fazem da vida humana um martírio -, para continuarmos seguindo em frente.

Em nossa concepção partidária, elementos fundamentais estão no protocolo de intenções, em seu manifesto e estatuto. O socialismo petista, os movimentos sociais, a democracia, a institucionalidade como ferramenta, a luta pela vida são princípios que nos norteiam, construídos de forma processual, a partir de análises entre passado e presente, considerando e desconsiderando experiências de movimentos partidários ou não partidários, que lutaram e lutam por outra concepção nas relações entre os seres humanos e o meio em que vivem. Inclusive, fundamentos construídos na própria experiência diária de um partido que nasce em um ambiente, que antes dele, já era marcado por atores sociais dos mais diversos, com seus costumes, práticas, relações econômicas, políticas, culturais e sociais.

Essa concepção atraiu milhares de militantes para a atuação real e prática na vida política em nosso país. O sonho de um país socialista estava no imaginário de muitas pessoas e muitos foram os que doaram seu tempo e suas vidas.

A ligação a um passado de militantes petistas e a contemporaneidade, considerado o processo da temporalidade, resulta em dúvidas e também indignações relacionadas a alguns factóides recentes, abrindo espaço para avaliações das mais diversas, seja ela individual ou coletiva, no sentido de desabonar condutas que, no passado, eram vistas apenas em outros partidos.

As recentes alianças, outrora inimagináveis, os desvios de conduta, o autoritarismo em alguns espaços, a lógica das lideranças públicas sobre as instâncias partidárias são elementos que enfraquecem o ânimo, a energia e o sonho de lutar com a esperança de que no futuro as coisas serão diferentes.

Esse passado, caracterizado por vários momentos de desprendimentos e dispêndios pessoais ou familiares, por lutas, reuniões estratégicas, manifestações em praças, de greves, prisões e torturas, de nascimentos e mortes, misturados a uma convicção, a um horizonte de possibilidades, tem diminuído sua força no presente. Mas é preciso resgatá-lo e preservá-lo como peça preciosa em nosso baú coletivo de experiências simbólicas.

Podemos chamar essas experiências de nossa consciência, aquela que carregamos para onde formos e que, nos momentos de indecisão, nos diga: “o socialismo petista é nosso objetivo, já fizemos campanhas sem gente paga e ganhamos com o povo; alianças, só se forem para garantir nosso projeto; não precisamos ganhar a qualquer custo; governaremos com o povo e não com os inimigos do povo; construiremos um partido que terá, entre outros objetivos, eleger, e não o contrário, eleger para construir partido”...

Por isso acredito que nossas dúvidas, nossos suspiros e, muitas vezes, indignações, necessitam um olhar verdadeiramente prioritário, ao mesmo tempo precursor, traduzido como uma espécie de concepção, que atravessa nossas análises do presente e se volta para o passado. E que, para futuras decisões, diante de qualquer práxis estabelecida dentro das esferas partidárias por suas direções, em quaisquer instâncias, tenhamos em nossa consciência o bom senso de um partido de raízes.

Marcas foram deixadas, em nossa consciência, em nossa carne e em nosso inconsciente que não podem ser esquecidas. Independente de nossas interpretações culturais acerca daquilo que nos fere, e nos afeta, tivemos em nossas gerações, entre os mais jovens e os mais antigos, elites que nos acompanharam e acompanham e que, em maior ou menor grau, consciente ou inconscientemente, nos prejudicaram e prejudicarão nossas gerações.

Acreditamos numa pátria e, através dessa crença, estabelecemos códigos que nos unem. Hierarquias foram construídas, decisões foram tomadas e, em sua maioria, grande parte da população brasileira não se beneficiou dos resultados dessa crença.

A eleição do Presidente Lula pode ser analisada como uma grande quebra de paradigmas. Quebraram-se muitos preconceitos. Com isso atravessamos o obstáculo da falta de esperança para um Brasil mais justo e igualitário.

Nós estávamos certos, acertamos na estratégia, acertamos nos argumentos, acertamos em várias análises de conjunturas, acertamos na luta.

Agora, chegou a nós a tarefa de continuar quebrando os inúmeros paradigmas que existem e nos assolam, a exemplo da reforma agrária, da participação popular, de valores culturais para além do mercado, do respeito à vida, ao meio ambiente, da educação libertária, do fim da exploração do homem pelo homem, da relação de gêneros e tantos outros.

É claro que temos certezas. Certeza, por exemplo, de que no governo federal melhoramos em demasia a condição de vida do nosso povo e, pela responsabilidade que temos, com as certezas vieram as dúvidas.

A nebulosidade que muitas vezes atrapalha nossa visão em relação a quem são nossos verdadeiros inimigos, dos que carregam como insígnia o conservadorismo e a defesa de uma classe superior, tem que ser esclarecida. Temos que ter a compreensão do nosso papel, saber quem somos e para o que existimos. Conseqüentemente, saber a quem não nos unirmos, quem não nos representa, não representa a maioria, a classe trabalhadora, o povo.

Exemplos de alianças nossas com PP, PMDB, PSDB, DEM, entre outros, marcam fortemente a incapacidade de termos um inimigo em comum.

Aliança, por si só, não é um problema que evidencia a destruição ou não de um partido político; mas, uma análise mal feita, sem ter a presença dos nossos inimigos e daquilo que eles representam, e disso resultar uma aliança, aí sim, pode fazer muita diferença.

Nessas eleições estamos evidenciando um processo jamais visto no partido. Nosso número de alianças nunca foi tão grande. Resumimos nossas candidaturas próprias, desaparecem do cenário, em vários municípios, o número 13, o PT, o discurso pela esquerda, a estrela e muitas vezes o orgulho. E, o pior, as alianças são com todos os partidos possíveis.

A luta para manter o PT num mínimo de diferenciação aos demais partidos, pelas instâncias superiores, estabelecendo critérios políticos para possíveis alianças, é considerada como um desagravo para os municípios que optaram por abraçar partidos que têm como histórico o antagonismo ao PT. Os argumentos são quase sempre os mesmos: “precisamos eleger alguém a qualquer custo”. O programa de governo, a estratégia do partido, o discurso em defesa do projeto nacional ou estadual, inclusive municipal, estão fora do debate, prevalecendo a eleição do fulano ou sicrano.

Os exemplos são variados quando se trata das conseqüências de alianças sem nenhuma estratégia coletiva. A cultura petista muda, os debates sobre programa de governo são reduzidos ao pragmatismo matemático eleitoral, discursos sobre a defesa dos movimentos sociais são abafados e, em muitos casos, a própria defesa do governo Lula tende a ficar num segundo plano.

Podemos dizer que acenos de lideranças no passado que, por motivos diversos, subiram em palanques hora de PP, hora de PMDB, ajudaram para essa conjuntura, aumentando ainda mais a nebulosidade perante nossa visão estratégica.

Não acredito que o PT tem prazo marcado para se deteriorar enquanto partido de massas, revolucionário e socialista. Acredito nos suspiros e na esperança de seguir em frente; acredito em nossa consciência coletiva tão marcada por intempéries circunstanciais; acredito nos suspiros e no seguir em frente, apostando, principalmente, nessa geração que vive o presente, nos novos filiados e na capacidade do partido trabalhar com formação, alimentando nossos sonhos e esperanças. Temos um longo caminho pela frente.

Carlos Eduardo
Vice presidente do PT-SC
Coordenador da Esquerda Socialista


Um comentário:

Edgar de Sousa Rego disse...

Belo texto Cadu!
E aí vai minha contribuição:
Acredito que o Brasil passa por mudanças. Mudanças essas que vão além do sistema político e econômico do país. O momento que vivemos à véspera da eleição municipal, mistura elementos como: ética, política, economia, poder e etc.. Tudo modificado após a Era Lula, que não cabe a mim julgar neste momento. O país tem a oprtunidade de construir algo novo, diferente dos modelos já pré existentes no mundo. O brasil vem se destacando em diversas áreas, seja na tecnologia, seja lideranças intelectualizadas, ou seja, isso tudo traduz o bom momento em que vive o país. Entretanto temos feridas que não foram tratadas, outras que ainda não cicatrizaram e pode ser neste ponto que colocamos tudo a perder. Não acredito em salvadores da pátria, porém acredito no esforço coletivo para a construção de uma sociedade justa e igualitária. E é exatamente neste ponto que podemos cometer o pecado de novamente afastarmos a grande parte da população da políticas. Sabemos que pelas denúncias de corrupção e negociatas os poderes montesquianos, no mundo, estão perdendo a sua credibilidade. No nosso país isso se agrava, pois o crime organizado começa a querer tomar conta e parecer mais honesto do que o poder oficial. Isso tudo extamente neste momento. Eu como estudioso da história deste país entendo este momento pós-Lula como essencial para a definição de país que meus netos irão herdar, só espero que pessoas que carregam a esperança como você e eu, consigamos construir algo bem melhor do que nós herdamos dos nossos avós.

Abraços fraternos