segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

MS lança manifesto pela Unidade das esquerdas petistas

A Militancia Socialista lançou na última reunião do Diretório Nacional do PT manifesto conclamando a unidade das esquerdas petistas já a partir do próximo PED, conforme decisão tomada em plenária nacional realizada em Nova Iguaçu/RJ, em dezembro de 2008. Leia abaixo a íntegra do texto.


MANIFESTO SOBRE AS TAREFAS E A UNIDADE DAS ESQUERDAS PETISTAS
Representantes da MILITÂNCIA SOCIALISTA DO PT, campo político interno do PT organizado em 14 estados do Brasil, reunidos/as em Nova Iguaçu, RJ, nos dias 11 e 12 de dezembro de 2008, dirigem-se aos companheiros e companheiras militantes do PT para apresentar as seguintes reflexões e propostas:
Neste momento de crise econômica e financeira internacional, que se associa a um conjunto de outras dimensões da crise do sistema capitalista em sua versão neoliberal – social, política, ambiental, cultural – urge que o PT retome as condições necessárias para seu efetivo protagonismo na luta por uma alternativa democrática e popular a esta conjuntura tão dramática quanto desafiadora e cheia de potencial transformador.
Se é verdade que, em todo o mundo, o ônus da crise gerada pelos mercados - antes apontados como os melhores organizadores da economia e da sociedade – é descarregada direta e fortemente sobre os ombros das classes trabalhadores e dos setores mais empobrecidos da sociedade, aqui no Brasil podem e devem ser diferentes a condução dos rumos da Nação e nossa intervenção no cenário internacional.
A crise do modelo neoliberal de acumulação capitalista tem seu epicentro nas economias mais centrais do sistema, e confirma a justa critica aos fundamentos deste modelo construída pela intervenção das esquerdas partidárias e sociais em nosso país ao longo de todos os governos, de Collor a FHC, que propugnaram a desregulamentação econômica, o enfraquecimento do Estado, a privatização de empresas e de políticas públicas universais como rumos para o nosso país.
A ampla hegemonia neoliberal, que se apresentou perante a derrocada do chamado socialismo real como o único e final caminho para a humanidade organizar a produção e a distribuição das riquezas, contaminou não só setores importantes do centro quanto das esquerdas partidárias e sociais, de nossos movimentos sociais e governos, o que nos obriga a enfrentar esse momento com uma perspectiva não só crítica como autocrítica. E a aproveitar as oportunidades que a crise de modelo apresenta para avançarmos na construção de políticas mais avançadas e no debate político e ideológico de alternativas à exploração e dominação capitalistas.
Para tanto, precisamos recuperar a agenda política do III Congresso Nacional do PT, seu próprio temário e resoluções, como parte integrante de um processo de avanço na sociedade brasileira das idéias socialistas e das políticas de caráter democrático e popular que constituem nosso patrimônio desde a fundação do PT na estratégia de disputa de hegemonia, acumulação de forças e construção socialista.
A MILITÂNCIA SOCIALISTA se consolida como um campo político plural e democrático, cujas resoluções se subordinam à participação dos coletivos que a constituem nacionalmente. Definimos nossas posições políticas nacionais em nossos fóruns de coordenação e plenárias, assegurando a necessária autonomia destes coletivos nos âmbitos municipal e estadual para fazer avançar suas lutas e organização. Avançamos aqui em Nova Iguaçu em nossa organização, e estamos preparados para disputar esse PED com a disposição de garantir espaços e políticas de esquerda para o PT neste momento tão central de nossa história.
Queremos destacar para o biênio 2009/2010, quatro grandes tarefas que o PT precisa enfrentar, numa quadra importante de nossa historia enquanto partido político e enquanto Nação. São tarefas para antes, durante e depois do PED unificar as esquerdas petistas e o conjunto do Partido e garantir uma nova etapa de sua construção.
O PT DEVE RECUPERAR SUA AUTONOMIA PERANTE O GOVERNO LULA PARA RETOMAR SUAS RESPONSABILIDADES ENQUANTO PARTIDO POLITICO PROTAGONISTA NA SOCIEDADE. O III Congresso do PT foi muito claro ao afirmar que ao PT não basta ser uma sombra de nosso governo, por mais bem sucedido que este possa ser, negligenciando sua condição de agente político capaz de organizar e representar setores e classes sociais, de apresentar programas e políticas próprias independentes dos programas e políticas do governo, de basear sua construção em seus objetivos históricos e não apenas nos seus objetivos imediatos.
O PT DEVE RECUPERAR O PETISMO COMO CONDIÇÃO PARA DISPUTAR O LULISMO ENQUANTO FENÔMENO POLÍTICO E SOCIAL. Em vários de nossos documentos, apontamos o risco do PT se acomodar ao sucesso do lulismo como método de, pela mera associação de imagem, assegurar seu espaço próprio na sociedade brasileira. Neste sentido, a recuperação do debate político e ideológico sobre o Socialismo Petista, a construção de um programa sobre o Brasil que Queremos no IV Congresso e a implementação das resoluções sobre construção partidária, aprovadas e ainda não assimiladas pelas direções, são elementos centrais para que o III Congresso produza seus frutos e redesenhe nossa intervenção política e social enquanto partido político.
O PT DEVE RETOMAR AS PRINCIPAIS RESOLUÇÕES DO III CONGRESSO QUE NORTEIEM UMA AGENDA COMUM ENTRE PARTIDO, GOVERNO E MOVIMENTOS SOCIAIS PARA O PRÓXIMO BIÊNIO. O III Congresso inovou ao debater sua pauta com os movimentos sociais, tanto no I Colóquio quanto na sua própria plenária, e retomou uma agenda política deixada por tempos de lado, a agenda política dos movimentos e das lutas sociais. Assim, o Congresso aprovou importantes resoluções sobre suas políticas para os setoriais, sobre a questão agrária, sobre a questão sindical, sobre a sua comunicação, sobre as questões de gênero, de etnia, de orientação sexual, entre outras, que precisam ser recuperadas e assimiladas como parte de uma nova política de organização e ação partidárias.
O PT DEVE ASSUMIR A CONSTRUÇÃO DE SUA CANDIDATURA E DE SEU PROGRAMA PARA 2010. A histórica decisão do III Congresso de definir-se pela construção de uma candidatura própria do PT a ser apresentada a aliados para continuar e aprofundar as transformações que fomos até agora capazes de liderar foi de certa forma prejudicada pela falta de iniciativa política, ao longo de todo o ano passado, nesta direção. Construir nossa candidatura presidencial exige do PT, para 2009, diálogo com a nossa base social e partidária, definições programáticas e de alianças, articulação de palanques estaduais coerentes com as bases programáticas nacionais, trabalho coletivo com os/as petistas no governo, tarefas imprescindíveis para a atual direção e para a próxima, a ser eleita no PED.
A convocação do PED e do IV Congresso permitem a recuperação do protagonismo do PT, desde que seja visto como parte de um processo que começa imediatamente e que norteie o trabalho da atual direção. Não será a nova direção a que conduzirá o processo eleitoral de 2010 e a concretização da agenda do III Congresso. Será esta, ou nenhuma.
Para o PED, defendemos a unidade das esquerdas petistas, que possa ser construída com estes objetivos. No último PED, seja pelo deslocamento de setores tradicionais da esquerda petista que se deslocaram para o centro, seja pelo crescimento numérico das filiações a partir de aparelhos institucionais (processo anterior que se confirmou em 2007 e se aprofundará em 2009), as esquerdas petistas não conseguiram polarizar adequadamente o debate político e atingir maior espaço de representação na direção partidária. Não acreditamos que, neste leque das Esquerdas Petistas, exista uma força política capaz de unificá-lo automaticamente a partir de seu programa específico ou de sua liderança. Reconheçamos nossa diversidade política, nossas diferentes expressões orgânicas e façamos disto um valor positivo. Propomos um esforço conjunto para forjar essa unidade das esquerdas petistas, abrangendo tendências, campos, coletivos, lideranças, que desejam renovar o espírito de luta solidário, fraterno e socialista.
A MILITÂNCIA SOCIALISTA se posiciona, pois, como uma das forças comprometidas com esse projeto. Antes, durante e depois do PED/2009.
Nova Iguaçu, 12 de dezembro de 2008.
Plenária Nacional da MILITÂNCIA SOCIALISTA DO PT

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

É a RBS que governa o estado


ENTREVISTA / CELSO TRES
"É a RBS que governa o estado"

Por Rafaela Mattevi e Cora Ribeiro em 16/12/2008
Publicado originalmente no jornal-laborató rio Zero, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), edição de novembro 2008

Na quarta-feira (10/12), o Ministério Público Federal de Santa Catarina entrou com uma Ação Civil Pública (processo nº. 2008.72.00.014043- 5) contra o oligopólio da empresa Rede Brasil Sul (RBS) no Sul do Brasil. O MPF requer, entre outras providências, a diminuição do número de emissoras da empresa em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, de acordo com a lei; e a anulação da compra do jornal A Notícia, de Joinville, consumada em 2006 – que resultou no virtual monopólio da empresa em jornais de relevância no estado de Santa Catarina. O quadro geral da situação pode ser conferido a seguir, na entrevista realizada em novembro com Celso Tres, um dos procuradores que elaborou a medida judicial.
***
O Cade também é réu
Desde 2006, o MP fala em processar a RBS pela compra do jornal A Notícia. Isso vai acontecer?
Celso Tres – Sim, a ação está sendo instruída há dois anos, por meio de um Inquérito Civil Público (ICP), porque é bem complexa. Também participam vários procuradores no estado. A RBS tem uma posição totalmente dominante. No RS e em SC, são 18 emissoras de televisão, dezenas de estações de rádio, uma dezena de jornais. E a culminância disso foi quando a RBS comprou o jornal A Notícia, o que a tornou dona de todos os jornais de expressão dos dois estados.
Então, o que nós vamos discutir é essa questão do oligopólio à luz inclusive da lei que regula a ordem econômica, não é nem a lei da mídia propriamente dita. É tão grotesco isso, que nem essa lei que regula a atividade de economia em geral permite o oligopólio – obviamente, é muito menos lesivo numa sociedade você ter um oligopólio de chocolate, pasta de dente, do que ter oligopólio da mídia. Falo oligopólio, porque monopólio seria a exclusividade absoluta; mas a RBS tem posição quase totalitária.
A tendência da economia é a concentração e, por isso, certas compras de empresas têm que ser analisadas. Esse caso da RBS é um escândalo, ela governa o estado. Como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a compra doAN? O Cade é réu na ação porque aprovou isso.
Violação a direito difuso
O que vai ser requerido, especificamente, na ação?
C.T. – Em linhas gerais, o que o MP demanda é: primeiro, que a compra do AN seja desfeita – eles vão ter que devolver o jornal para o antigo dono ou vender para terceiros; segundo, que seja cumprida a lei que diz que eles só podem ter no máximo duas emissoras no estado, ou seja, que acabe essa farsa que é de ser tudo da mesma família; e terceiro, o que eu acho mais importante, a implementação da programação local. A Constituição Federal determinou que é obrigatória a programação local. Só que em 20 anos nunca se adequou a lei. Então, o MP está querendo que a Justiça arbitre um percentual – 30% de programação local no âmbito do estado e 15% em cada região, no mínimo.
São inúmeros réus: todas as pessoas físicas da RBS, cada "emissora", o Cade; a União, por causa do Ministério das Comunicações (MC). E o MP pede para que a Justiça estabeleça uma multa por violação a um direito difuso, em razão da omissão do poder público. A gente vai entrar com a ação nos próximos meses e a sentença em primeiro grau deve sair em um ano.
Evitar concentração
O que foi feito no Inquérito?
C.T. – O ICP não é um processo judicial, não tem contraditório, ou seja, quem é investigado não tem direito de resposta. Mesmo assim, o MP abriu pra RBS se manifestar e, inclusive, eles vieram com o mesmo discurso do Ministério da Comunicação. Eles [a RBS e o MC] se comunicaram, é uma piada. A mesma pessoa que redigiu a resposta do Ministério redigiu a da RBS, é uma coisa vergonhosa. O mesmo discurso: "Não, porque a lei diz que é a mesma pessoa física só que no caso não é." É chamar o legislador de imbecil.
Quando a lei diz que tu não podes ser titular de mais de dois veículos, qual é o objetivo dela? É evitar concentração. Se é da mesma família, se tem a mesma programação, está concentrado, é evidente. É uma fraude clara ao objetivo da lei. Não teria sentido proibir que alguém seja proprietário de mais de dois meios de comunicação e permitir que esse meio de comunicação transmita a mesma programação, tenha a mesma linha editorial etc. É a mesma coisa que nada.
Pessoa física, e não pessoa jurídica
Então o problema do oligopólio é a fiscalização?
C.T. – A nossa legislação é desacatada porque o uso da radiodifusão sempre foi um benefício político. Essa relação do poder público está tão viciada que o MC não faz absolutamente nada para reprimir esses ilícitos e o caso da RBS é muito claro.
Na última eleição [para governador], isso ficou bastante evidente. A tríplice aliança de Luiz Henrique foi com a RBS; foi uma vergonha porque no primeiro turno a RBS anunciava que não ia ter segundo turno. Daí, deu segundo turno e eles anunciaram até um dia antes da eleição dizendo que a diferença era astronômica e, no final, deu 5% de diferença entre o Amin e o Luiz Henrique. Então não há dúvida de que a RBS elegeu o Luiz Henrique. Independentemente da pressão política, isso é irrelevante para o MP. Mas qualquer inocente sabe que a massificação de alguém que está na frente arrasa, induz o povo a votar.
Em cada estado, um titular só pode ter no máximo duas emissoras – emissoras, não retransmissoras. Este é outro vício: as emissoras têm outorgas de emissão, ou seja, elas deveriam produzir programação, mas não produzem ou fazem uma programação local ínfima, como é o caso da RBS. Existem várias "emissoras", em Florianópolis, Criciúma, Lages, Xanxerê, Blumenau, Joinville. Mas, na verdade, elas só produzem um noticiário local.
Hoje, na verdade, em SC, ou você trabalha na RBS ou você está fora. Você vai estar trabalhando ou em órgãos bem pequenos, espaço de trabalho inclusive bastante reduzido, caso do que eles fizeram com o AN. As matérias são as mesmas, teve um momento assim que chegaram ao ridículo de colocar a mesma manchete, a mesma matéria.
A radiodifusão – emissora de rádio e TV – deve estar em nome de pessoa física, não de pessoa jurídica, e cada pessoa só pode ter duas por estado. Daí, o que eles fazem é colocar em nome de pessoas da família. E isso tudo está demonstrado claramente na ação. Inclusive a questão da retransmissão.
Dizimar a concorrência
E isso não é contrato simulado, colocar tudo no nome da família inteira?
C.T. – Essa questão da titularidade é uma questão criminal, porque é uma falsidade ideológica. Isso a gente vai verificar mais tarde. O objetivo, agora, é mudar a realidade. O MC diz que não controla isso porque a RBS está em nome de terceiros. É óbvio que é irrelevante que a concessão esteja no nome de A ou B, até porque – como é o caso de Blumenau, que não está no nome da família Sirotsky – retransmitem a mesma programação, essa é a grande questão, o conteúdo.
A lei diz que ter 20% do mercado é ter posição dominante e obviamente a RBS tem isso. E essa questão tem vários aspectos: direito à informação e direito à expressão, e também a questão da publicidade. Por exemplo, o Diarinho de Itajaí, o que a RBS faz com os caras? Na Rede Angeloni, faz contratos publicitários, impedindo que o supermercado coloque lá o Diarinho para os caras venderem. Então não existe concorrência, acabou. A concorrência é dizimada. Na Grande Florianópolis, eles lançaram o jornal A Hora a R$ 0,25, o que é claramente um preço inferior ao de custo, pra dizimar com a concorrência. Essas são as práticas deles.
Executivo subalterno
Existe solução?
C.T. – A questão é permitir a multiplicidade. A rede pública de televisão, com a criação da TV Brasil, poderia ter sido uma saída, mas o governo fez tudo errado. O correto seria que o Estado disponibilizasse canais, não adianta tentar produzir programação.
Seria fácil: criar 30 canais de TV para serem disponibilizados à população. Depois seria só colocar retransmissoras públicas nos centros urbanos, para os canais transmitirem programação independente. Uma medida simples, percebe? Bastava criar os canais e construir as retransmissoras. É uma questão tecnológica e de vontade política.
Custaria muito mais barato do que o governo tentar produzir programação e todos teriam oportunidade de fazer sua produção. O governo faria as retransmissoras, pura e simplesmente. Seria uma revolução na comunicação. A mídia, em pouco tempo, mudaria porque, com uma multiplicidade de canais, o canal com maior audiência chegaria a 15%, 10%, como é nos EUA, que é o correto.
Certamente se o governo viesse "Ah, vamos fazer aplicar a lei das duas emissoras", eles iam dizer, "Não! É uma lei da ditadura! O Lula é o Chávez." É uma besteira. O que diz a lei? Cada cidadão tem que ter um número x de canais, essa é a meta. Podia botar no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) isso aí. É uma questão econômica, direitos individuais, gera muito emprego, oportunidades, veiculação comercial; atingiria em cheio a própria economia.
O principal modo de democratizar não seria combater o monopólio e o oligopólio?
C.T. – O primeiro passo seria esse, mas, como eu falei, os órgãos do executivo são muito subalternos e também a RBS pode virar o governo. Qual a finalidade de um deputado federal que vai lá propor uma legislação mais rígida para isso? Se é um deputado de SC, a RBS vai fazer algumas reportagens contra o cara e ele está acabado. O cara não se reelege mais.
Você já foi ameaçado?
C.T. – Não, por isso não.

É a RBS que governa o estado


ENTREVISTA / CELSO TRES
"É a RBS que governa o estado"

Por Rafaela Mattevi e Cora Ribeiro em 16/12/2008
Publicado originalmente no jornal-laborató rio Zero, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), edição de novembro 2008

Na quarta-feira (10/12), o Ministério Público Federal de Santa Catarina entrou com uma Ação Civil Pública (processo nº. 2008.72.00.014043- 5) contra o oligopólio da empresa Rede Brasil Sul (RBS) no Sul do Brasil. O MPF requer, entre outras providências, a diminuição do número de emissoras da empresa em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, de acordo com a lei; e a anulação da compra do jornal A Notícia, de Joinville, consumada em 2006 – que resultou no virtual monopólio da empresa em jornais de relevância no estado de Santa Catarina. O quadro geral da situação pode ser conferido a seguir, na entrevista realizada em novembro com Celso Tres, um dos procuradores que elaborou a medida judicial.
***
O Cade também é réu
Desde 2006, o MP fala em processar a RBS pela compra do jornal A Notícia. Isso vai acontecer?
Celso Tres – Sim, a ação está sendo instruída há dois anos, por meio de um Inquérito Civil Público (ICP), porque é bem complexa. Também participam vários procuradores no estado. A RBS tem uma posição totalmente dominante. No RS e em SC, são 18 emissoras de televisão, dezenas de estações de rádio, uma dezena de jornais. E a culminância disso foi quando a RBS comprou o jornal A Notícia, o que a tornou dona de todos os jornais de expressão dos dois estados.
Então, o que nós vamos discutir é essa questão do oligopólio à luz inclusive da lei que regula a ordem econômica, não é nem a lei da mídia propriamente dita. É tão grotesco isso, que nem essa lei que regula a atividade de economia em geral permite o oligopólio – obviamente, é muito menos lesivo numa sociedade você ter um oligopólio de chocolate, pasta de dente, do que ter oligopólio da mídia. Falo oligopólio, porque monopólio seria a exclusividade absoluta; mas a RBS tem posição quase totalitária.
A tendência da economia é a concentração e, por isso, certas compras de empresas têm que ser analisadas. Esse caso da RBS é um escândalo, ela governa o estado. Como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a compra doAN? O Cade é réu na ação porque aprovou isso.
Violação a direito difuso
O que vai ser requerido, especificamente, na ação?
C.T. – Em linhas gerais, o que o MP demanda é: primeiro, que a compra do AN seja desfeita – eles vão ter que devolver o jornal para o antigo dono ou vender para terceiros; segundo, que seja cumprida a lei que diz que eles só podem ter no máximo duas emissoras no estado, ou seja, que acabe essa farsa que é de ser tudo da mesma família; e terceiro, o que eu acho mais importante, a implementação da programação local. A Constituição Federal determinou que é obrigatória a programação local. Só que em 20 anos nunca se adequou a lei. Então, o MP está querendo que a Justiça arbitre um percentual – 30% de programação local no âmbito do estado e 15% em cada região, no mínimo.
São inúmeros réus: todas as pessoas físicas da RBS, cada "emissora", o Cade; a União, por causa do Ministério das Comunicações (MC). E o MP pede para que a Justiça estabeleça uma multa por violação a um direito difuso, em razão da omissão do poder público. A gente vai entrar com a ação nos próximos meses e a sentença em primeiro grau deve sair em um ano.
Evitar concentração
O que foi feito no Inquérito?
C.T. – O ICP não é um processo judicial, não tem contraditório, ou seja, quem é investigado não tem direito de resposta. Mesmo assim, o MP abriu pra RBS se manifestar e, inclusive, eles vieram com o mesmo discurso do Ministério da Comunicação. Eles [a RBS e o MC] se comunicaram, é uma piada. A mesma pessoa que redigiu a resposta do Ministério redigiu a da RBS, é uma coisa vergonhosa. O mesmo discurso: "Não, porque a lei diz que é a mesma pessoa física só que no caso não é." É chamar o legislador de imbecil.
Quando a lei diz que tu não podes ser titular de mais de dois veículos, qual é o objetivo dela? É evitar concentração. Se é da mesma família, se tem a mesma programação, está concentrado, é evidente. É uma fraude clara ao objetivo da lei. Não teria sentido proibir que alguém seja proprietário de mais de dois meios de comunicação e permitir que esse meio de comunicação transmita a mesma programação, tenha a mesma linha editorial etc. É a mesma coisa que nada.
Pessoa física, e não pessoa jurídica
Então o problema do oligopólio é a fiscalização?
C.T. – A nossa legislação é desacatada porque o uso da radiodifusão sempre foi um benefício político. Essa relação do poder público está tão viciada que o MC não faz absolutamente nada para reprimir esses ilícitos e o caso da RBS é muito claro.
Na última eleição [para governador], isso ficou bastante evidente. A tríplice aliança de Luiz Henrique foi com a RBS; foi uma vergonha porque no primeiro turno a RBS anunciava que não ia ter segundo turno. Daí, deu segundo turno e eles anunciaram até um dia antes da eleição dizendo que a diferença era astronômica e, no final, deu 5% de diferença entre o Amin e o Luiz Henrique. Então não há dúvida de que a RBS elegeu o Luiz Henrique. Independentemente da pressão política, isso é irrelevante para o MP. Mas qualquer inocente sabe que a massificação de alguém que está na frente arrasa, induz o povo a votar.
Em cada estado, um titular só pode ter no máximo duas emissoras – emissoras, não retransmissoras. Este é outro vício: as emissoras têm outorgas de emissão, ou seja, elas deveriam produzir programação, mas não produzem ou fazem uma programação local ínfima, como é o caso da RBS. Existem várias "emissoras", em Florianópolis, Criciúma, Lages, Xanxerê, Blumenau, Joinville. Mas, na verdade, elas só produzem um noticiário local.
Hoje, na verdade, em SC, ou você trabalha na RBS ou você está fora. Você vai estar trabalhando ou em órgãos bem pequenos, espaço de trabalho inclusive bastante reduzido, caso do que eles fizeram com o AN. As matérias são as mesmas, teve um momento assim que chegaram ao ridículo de colocar a mesma manchete, a mesma matéria.
A radiodifusão – emissora de rádio e TV – deve estar em nome de pessoa física, não de pessoa jurídica, e cada pessoa só pode ter duas por estado. Daí, o que eles fazem é colocar em nome de pessoas da família. E isso tudo está demonstrado claramente na ação. Inclusive a questão da retransmissão.
Dizimar a concorrência
E isso não é contrato simulado, colocar tudo no nome da família inteira?
C.T. – Essa questão da titularidade é uma questão criminal, porque é uma falsidade ideológica. Isso a gente vai verificar mais tarde. O objetivo, agora, é mudar a realidade. O MC diz que não controla isso porque a RBS está em nome de terceiros. É óbvio que é irrelevante que a concessão esteja no nome de A ou B, até porque – como é o caso de Blumenau, que não está no nome da família Sirotsky – retransmitem a mesma programação, essa é a grande questão, o conteúdo.
A lei diz que ter 20% do mercado é ter posição dominante e obviamente a RBS tem isso. E essa questão tem vários aspectos: direito à informação e direito à expressão, e também a questão da publicidade. Por exemplo, o Diarinho de Itajaí, o que a RBS faz com os caras? Na Rede Angeloni, faz contratos publicitários, impedindo que o supermercado coloque lá o Diarinho para os caras venderem. Então não existe concorrência, acabou. A concorrência é dizimada. Na Grande Florianópolis, eles lançaram o jornal A Hora a R$ 0,25, o que é claramente um preço inferior ao de custo, pra dizimar com a concorrência. Essas são as práticas deles.
Executivo subalterno
Existe solução?
C.T. – A questão é permitir a multiplicidade. A rede pública de televisão, com a criação da TV Brasil, poderia ter sido uma saída, mas o governo fez tudo errado. O correto seria que o Estado disponibilizasse canais, não adianta tentar produzir programação.
Seria fácil: criar 30 canais de TV para serem disponibilizados à população. Depois seria só colocar retransmissoras públicas nos centros urbanos, para os canais transmitirem programação independente. Uma medida simples, percebe? Bastava criar os canais e construir as retransmissoras. É uma questão tecnológica e de vontade política.
Custaria muito mais barato do que o governo tentar produzir programação e todos teriam oportunidade de fazer sua produção. O governo faria as retransmissoras, pura e simplesmente. Seria uma revolução na comunicação. A mídia, em pouco tempo, mudaria porque, com uma multiplicidade de canais, o canal com maior audiência chegaria a 15%, 10%, como é nos EUA, que é o correto.
Certamente se o governo viesse "Ah, vamos fazer aplicar a lei das duas emissoras", eles iam dizer, "Não! É uma lei da ditadura! O Lula é o Chávez." É uma besteira. O que diz a lei? Cada cidadão tem que ter um número x de canais, essa é a meta. Podia botar no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) isso aí. É uma questão econômica, direitos individuais, gera muito emprego, oportunidades, veiculação comercial; atingiria em cheio a própria economia.
O principal modo de democratizar não seria combater o monopólio e o oligopólio?
C.T. – O primeiro passo seria esse, mas, como eu falei, os órgãos do executivo são muito subalternos e também a RBS pode virar o governo. Qual a finalidade de um deputado federal que vai lá propor uma legislação mais rígida para isso? Se é um deputado de SC, a RBS vai fazer algumas reportagens contra o cara e ele está acabado. O cara não se reelege mais.
Você já foi ameaçado?
C.T. – Não, por isso não.